
"É ele [o ser querido], é a sua voz que nos fala, que ali está. Mas como essa voz se acha longe! Quantas vezes não pude escutar senão com angústia, como se ante essa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu melhor sentisse o que há de decepcionante na aparência da mais doce aproximação, e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece que bastaria estendermos a mão para retê-las! Presença real a dessa voz tão próxima na separação efetiva! Mas antecipação também de uma separação eterna! Muita vez, escutando assim, sem ver, aquela que me falava de tão longe, me pareceu que aquela voz clamava das profundezas de onde não se sobe, e conheci a ansiedade que me havia de angustiar um dia, quando uma voz voltasse assim (sozinha e não mais presa a um corpo que eu nunca mais veria) a murmurar em meu ouvido palavras que eu desejaria beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó."
[Marcel Proust, Em busca do tempo perdido. O caminho de Guermantes.]
Não. A ansiedade não desapareceu.
fala aqui no meu ouvido...
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