
"Eu já te dei tudo. O que mais você quer?"
(queria apenas fazer um convite)
O quarto estava na penumbra, apenas a luz de uma vela clareava o ambiente. Vozes alternadas relatavam histórias que com certeza, em algum lugar paralelo, aconteceram. De repente, as mãos se tocaram. O olhar continuava firme, vendo apenas a chama balançar e a expressão na face de quem contava. Ela, aquela criança-criatura, ser misterioso que pode muito mais que todos supõem, estava em meu colo, apoiada em mim, sorrindo com ar de quem sabe de tudo. Olhar travesso sobre o que aconteceu e o que acontecerá. O que era um simples toque de mãos evoluiu: seu peito tocava minhas costas. Sua mão passeou sob minha camiseta. Aqueles belos dedos acariciavam meu umbigo - parte do meu corpo que nunca havia sido elogiada até então. Dali, subiu para meu peito. Fingi que nada acontecia. Permaneci compenetrado na historia e naquele ser que estava sobre meu colo - somente ela sabia o que se passava dentro de mim.
Carícias depois, como quem beija um amigo, toquei meus lábios em sua testa. Me surpreendi com seus lábios tocando rapidamente - como quem foge do que sente - os meus. Continuei a ignorar. Tentei me enganar fazendo a maremoto que era o meu estômago parecer nada mais que uma brisa. Em silêncio, conversei com aquela criança. Disse que um dia ele seria meu. Não sei quando, mas seria. E ela me ajudaria. Ah... como ela é imediata! Os beijos tornaram-se frequentes. Todas elas desapareceram: a voz, a luz e a criança. Ele parecia certo do que queria. Eu sabia que horas depois não seria assim. Mesmo assim, resolvemos viver. Era uma oportunidade que a vida nos dava. Para alguns, dois corpos nus, juntos, é sinal de um alto nível de intimidade. E assim tomamos banho. Nos demos banho. A luz, que antes era de velas, agora era de um celofane vermelho. O direito de por as roupas para dormir me foi privado. Sequer me perguntou se eu queria, jogou longe e pronto. Mas é óbvio que eu queria. Ali vivemos momentos lindos. Momentos de toque, de silêncio, de prazer. Passei por situações jamais esperadas, e foi bom. Talvez só tenha sido bom pelo valor da companhia. Depois vem a leveza. E mais tarde, água. Dormimos juntos como estamos acostumados a dormir cada um em sua casa. O que valia era a liberdade, naturalidade e principalmente, a "intimicumplicidade". Na madrugada, sonho com o que já partiu. Algo que não fazia parte de mim, mas dele - e era desconhecido.
Amanhece. Não sei como cumprimentar. Dúvidas tomam todo meu ser. Nossos corpos se encontram, entrelaçam e congelam. Me faz uma confissão. Fico aliviado por se mostrar receptivo. Beijos me revelam que aquilo tudo era real. Parecia não - superficialmente real. Outro banho. Nos banhamos.
" - (...)aquela cena dura cinco minutos. É lindo ela dando banho nele. (longa pausa) Eu gosto muito de você.
- A recíproca é mais que verdadeira. Já te disse isso um dia... e você não ouviu."
Despediram-se. Cerca de 36h depois se encontraram. Tudo estava normal. Pela primeira vez doeu fazer de conta que nada aconteceu.
Isso foi o que vi. Me pergunto como será o outro campo de visão. A outra versão da história.
"Pode acreditar, eu agora sei voar..." É lindo. Mas se esqueceu de cantar a outra parte da música: "... e num pé de vento você vai me ver passar."
Fala de arte e tem lindos sentimentos. Pena que são apenas para uma pessoa: para si. Não se esconda atrás de confissões. Assuma a verdade nua e crua.
A realidade vem num balde d'água gelada, e as coisas escurecem aqui dentro. Pego o coração de metal e coloco no peito. E não adianta bater o pé três vezes, não há lugar para voltar. As coisas que acredito existem, mas tantas pessoas se esqueceram delas que fica até difícil encontrar. Reclamam do mundo moderno mecanizado, mas se esquecem que o que não é mecânico não depende do mundo, e sim de nós.
Histórias como estas me fazem pensar no que tive medo de tentar. Oportunidades perdidas. Me deixam passar como um dia passei alguém. Sorte minha ter consciência de que não tenho o direito de mexer em feridas antigas alheias, nem de gerar novas feridas nos outros - não por vaidade minha.
Tudo isso foi irônico. Foi cruel. Foi inesquecível.
Enquanto tenho vontade de dizer "se perde comigo pra sempre?", vejo que não passei de Carne Aprovada.
(É isso, ou de fato sou cego.)
(uma longa pausa)
ResponderExcluir(um rápido suspiro)
Fiquei sem ar.
é lindo ter-te em letras.
ResponderExcluire é tanta coisa de uma vez... que a gente já nem pensa mais...
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